Quem tem medo do lobby?    

18 de abril de 2016

A imagem do profissional do lobby é a de alguém que atua nos bastidores, nos salões de estar e bares discretos dos hoteis, conversando em tom baixo, às esconsas,  calcado em comissões, na propina, que guardam forma e cheiro de dinheiro vivo e sujo. Por definição,  o lobista não passaria de um corruptor, figura sinistra e maligna, a assombrar e ameaçar com seus eternos malfazeres.

O ambiente corporativo deve ser regido pelo respeito à transparência, à ética, à integridade, com informações claras e precisas. Negadas, deixam uma terra de ninguém no campo da comunicação, aos trambolhões, ocupada por versões antagônicas, nascidas da desconfiança de que o silêncio é o biombo, o tapume, que esconde algo. Sem informações, cada um imagina a sua, e as atitudes, que vão da relutância à aceitação e ao franco embate em campo aberto, contra o lobista, são compreensíveis.

É nesse espaço que concorrentes, governos, mídia e sociedade em geral, muitas vezes atingem o profissional do lobby, em seu mister e sua honra, ora à procura de posições adequadas à empresa ou atuando para impedir a adoção de antagônicas. É o seu trabalho.

As empresas  inovadoras, por seu turno, tratam de desmistificar a imagem negativa do lobby. Assim, poderão os lobistas empenhar-se de forma clara, e até destemida, chegando  à sociedade, em geral, pelos canais idôneos da comunicação, da mídia honestamente bem informada.

Agir por meio de conversação em agenda aberta, organizada e nítida, e por esse motivo, a salvo dos constrangimentos de conchavos e consórcios- pacto de preços, reservas de mercado e de trabalho, divisão de território, tampouco apuração astuta de indicadores e da opção por acordos setoriais de preços- carteis oficializados no passado recente.

Tal comportamento corporativo permitiria contato franco e direto, todos com todos. Com mais segurança, os caminhos do atendimento aos pleitos e objetivos legítimos e justificáveis, abrir-se-iam à discussão de forma justa, digna e honrada.

Ademais, o que se espera é a institucionalização de um setor específico nas empresas, com atividades claras e definidas, que mantenham o mercado informado, oferecendo e distribuindo, periodicamente, dados relevantes, informações, serviços, apoio,  ideias e sugestões oportunas e corajosas, longe de benefícios e vantagens manchados pela corrupção, do da lá e toma cá, do cada um por si.

É o que nas nações mais antigas e desenvolvidas que o Brasil– este ainda adolescente país– empresas, respondendo com elevado coeficiente de amadurecimento ao mundo economicamente sem fronteiras, sem segredos, pela irrupção espantosa e maciça de informações,  enfatizam a Governança, a Integridade, a Compliance, reduzindo, pouco a pouco, o contingente dos governantes, empresários, executivos, consultores, acadêmicos e jornalistas, com medo do lobby.

Enfim, a atividade do lobista pode até– bem ao contrario do que se propala–, contribuir para aderência de clima de integridade e  responsabilidade corporativa  e institucional, evidenciando comportamentos e tirando das sombras o que deveria, sim, ser de conhecimento das forças do mercado e das exigências da melhor cidadania.

Luiz Affonso Romano é consultor, coach para desenvolvimento em consultoria, professor dos Cursos de Desenvolvimento de Consultores  e  presidente da ABCO Associação Brasileira de Consultores

 

Ouvimos por aí nº 71, maio 2016; Revista IBEF, Opinião, ano XII, número 62, bimestral – 2016(www.ibefrio.org.br); Monitor Mercantil- Digital  18.12.2017 https://monitordigital.com.br/quem-tem-medo-do-lobby-

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5 Comments

  1. Luiz Affonso Romano · 18 de janeiro de 2018 Reply

    Vamos colocar sempre em xeque, Neila Cristina, o que nos é apresentado como verdadeiro, como o real problema, como única saída…É um dos nossos papeis e “reverberar”.
    Abraço
    Luiz Affonso Romano

  2. Neila Cristina Franco · 18 de janeiro de 2018 Reply

    Excelente posicionamento do Luiz Affonso Romano sobre a forma como o Brasil enxerga o lobby.

    Enquanto não ganharmos maturidade para ver o valor de entregar conhecimento (onde quer que ele esteja) e colocá-lo sobre a mesa a serviço do desenvolvimento ou performance de produtos (quaisquer, incluindo inovação) ou projetos (incluindo os sociais), sensibilizando grupos de poder (políticos, poderes públicos e etc) sobre as necessidades emergenciais para sobrevivermos, haverá alguém para se privilegiar dessas informações (ou da falta delas). Com essa conduta causará retardo dos ganhos que a “pressão” de um papel “integrador”( como o do lobista) tem desde a sua origem a nosso favor.

    BRAVO ROMANO!!!

    Neila Cristina Franco
    Consultora
    http://neilacristinafranco.com.br/

    Leia!!!

    https://monitordigital.com.br/quem-tem-medo-do-lobby-

  3. Carlos Peixoto · 25 de abril de 2016 Reply

    Muito bem colocado, Prof. Romano. Tratar o consultor especializado em negociações comerciais ou o lobista profissional como se fosse um agente promotor da corrupção, é no mínimo falta de informação. Seu artigo joga luz onde há pouco conhecimento ou boa vontade.
    Carlos Peixoto
    Consultor

  4. Paulo Jacobsen · 19 de abril de 2016 Reply

    Na verdade, numa empresa- qualquer delas-, não há segredos definitivos…. Quem pensa assim é que não consultou as secretárias e os contínuos, o garção do cafezinho, as telefonistas e o ascensorista e, nunca esquecendo- talvez até principalmente-, o motorista do Diretor-Presidente!

    Por outro lado, na ausência de informações ninguém fica sem elas. Ao contrario, inventa-se, fabula-se- geralmente com a pior hipótese-, para ocupar o espaço vazio, que ninguém se conforma com o vácuo da ignorância humilhante.

    Daí que a exposição correta e desassombrada dos fatos, a transparência explícita, por mais arriscada que pareça ser, talvez ainda seja a melhor alternativa.

    Paulo Jacobsen
    Professor e consultor

  5. Carlos Velloso · 19 de abril de 2016 Reply

    Parabéns Prof. Romano ! Muito atual e oportuno este seu artigo, dando transparência, trazendo à tona, revelando a realidade de uma atividade que é tratada de forma séria no mundo todo (apesar de ter seus desvios, inerentes ao ser humano), mas ainda é percebida como atividade soturna e misteriosa por alguns.
    Carlos Velloso
    Consultor e conselheiro IBGC

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