Do quintal para o mundo

9 de novembro de 2018

Mercosul pode ser transformado no trampolim para a América do Sul

A América do Sul ainda não foi capaz de protagonizar a própria história. Inscrita na internacionalização, presta-se a commodities e mão de obra para a formação de recursos aos países do Norte. O continente precisa conseguir sua independência, não apenas política, mas também, e principalmente, econômica. E o Mercosul é a oportunidade. A oportunidade de ser não vista apenas como uma região exótica. É o momento de caminhar com as próprias pernas, sem dependência, sem tutores, sem medo e com coragem, determinação.

Mas para que o Mercosul e também o continente encontrem o seu caminho, é fundamental que os governantes e empresários se empenhem, tomem atitudes, tenham confiança em si mesmo e conquistem e mobilizem a sociedade para tornarem seus países e, consequentemente, a região exemplo de soberania política e desenvolvimento econômico para o mundo.

É preciso engajar na iniciativa segmentos sociais que serão direta e indiretamente beneficiados. É fundamental atrair as maiores parcelas possíveis das populações dos quatro países do Mercosul e também seus vizinhos. Todos devem estar conscientes da contribuição que vão dar; todos precisam estar conscientes de que terão ganhos. É preciso fazer a hora. Basta de esperar e chega de lamentar erros cometidos. A globalização não acolhe perdedores.

O mestre argentino Raúl Prebisch já tinha ensinado, num passado não muito distante, os caminhos. As lições que deixou à Cepal, encampadas pelo colaborador brasileiro Celso Furtado, apontavam para o fortalecimento do mercado interno. O continente abandonaria seu comportamento colonial, direcionado às metrópoles, situação que persiste de formas diferentes, com os mesmos prejuízos. Ele disse que o desenvolvimento não deveria dar-se pelo mercado externo, mas pelo interno, este sim capaz de provocar o deslanche da economia dos países sulamericanos.

Em síntese, repetindo Tolstoy, é preciso ser universal no seu quintal para conquistar o mundo. Ninguém é forte fora das suas fronteiras se não tiver grandeza interna. E o Mercosul pode ser transformado no trampolim para o salto adiante.

Essa verdade, a importância do fortalecimento do mercado interno para desenvolver a economia dos países, não pode ser ignorada. Como também não pode ser ignorada a necessidade de gerar oportunidades de trabalho, emprego, e, consequentemente, geração de renda à população para incrementar o consumo interno.

Portanto, qualquer projeto tem que contar com o respaldo da sociedade. A população deve ser engajada, deve ser convocada, apontando os benefícios advindos. Sem ela, o fracasso virá. Porque não cabe ao Estado expressar a vontade de poucos, mas sim da maioria.

O desenvolvimento é um processo social e suas características econômicas permitem ver a trama das relações sociais subjacentes.

Por que não convocar os beneficiários finais do Mercosul? O chamamento deve começar já. As autoridades governamentais e os empresários estão sensibilizados, necessitam apenas de ter vontade política para fazer o que deve ser feito. Unirem esforços para aparar arestas, superar entraves burocráticos e tornar real o imaginado.

Falta ainda atrair a sociedade que dará respaldo político e econômico, assegurando a legitimidade da iniciativa. Entretanto, para atingir o desenvolvimento econômico, faz-se necessário qualificar a população. E é sabido que para isso é necessário investir em educação, capacitando a força de trabalho, especialmente para utilização de novas tecnologias.

A unificação da Europa serve de exemplo. Mais do que eliminar fronteiras para transformar em país um continente, a medida busca melhorar a qualidade de vida dos seus habitantes, democratizando, além das oportunidades de trabalho, as oportunidades de consumo. E os europeus não ficam à margem do processo. Eles têm sido consultados por meio de referendos. Todos estão conscientes.

Para ficar apenas num exemplo próximo aos brasileiros, os portugueses hoje são europeus, rompendo antigos laços afetivos com a ex-colônia. O interesse coletivo (Europa) sobrepõe-se ao individual (Portugal) para viabilizar as duas partes e compor o todo. O mesmo sentimento se manifesta entre outros países do Velho Continente. A ideia foi absorvida por todos, mesmo sendo diferentes, tornaram-se iguais.

A lição da Europa deve ser apreendida pelos integrantes do Mercosul. Chegou um novo momento de forjar a nossa história.

Este continua sendo o Novo Continente, onde persiste a ideia de que não se alcançou o futuro. É chegada a hora. Não bastam ações, mesmo que conjuntas, de governos. Todos precisam ser envolvidos.

O Cone Sul tem capacidade produtora de abastecer os grandes mercados em commodities e manufaturados. As nossas indústrias, com avanços na qualidade, atendem às demandas internacionais. A economia deixou de ser uma atividade ilhada por interesses próprios. Ela está internacionalizada e as parcerias são fundamentais. É preciso somar forças.

Contar com todos é fundamental. Sem a participação de paraguaios, uruguaios, argentinos, brasileiros e de outros que venham se engajar, qualquer iniciativa, por melhores que sejam os propósitos, será inócua. Vamos ampliar o nosso próprio mercado, fortalecer o mercado interno para depois conquistar o externo.

É preciso ser bom em casa para ser bom lá fora, a fim de escrever a nossa própria história

Luiz Affonso Romano

Consultor de empresas, é presidente da Associação Brasileira de Consultores (ABCO).

https://monitordigital.com.br/do-quintal-para-o-mundo

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