De olhos turvos na ( nova) crise

4 de junho de 2018

 Por falar em Crise, o que mudou?

Encerramos 2008 entre os discursos de que agora a crise se instalou, não mais se avizinha, e de que vamos tratar de abrir o caixa para salvar o consumo e “garantir” os empregos. Sem um plano alternativo, acompanhando os desesperos dos gigantes, vamos bancando, com R$ 8 bilhões, que deveriam ser destinados à Saúde e à Educação, uma indústria ultrapassada que teima em percorrer estradas esburacadas, malha urbana esgotada, e atender um número ínfimo de brasileiros.

Demorou-se a perceber a extensão da crise e ainda se tenta aquecer o Natal – as filas de emprego e a inadimplência não apareceram nos noticiários. Os futurólogos de semestre também erraram em tudo: crescimento econômico, inflação, taxa de juros, reservas…

Bem, arrisco-me a citar Fernand Braudel, ilustre historiador francês que ministrou cursos na USP, na década de 1930, conceituando a história como devendo ser um relato diferente do meramente episódico — a história dos acontecimentos —, que expõe somente os picos do iceberg, esquecendo a enorme base piramidal submersa (4/5 do total), e seu lento congelamento estruturado (essa sim gera a história), a qual será percebida mais tarde pelo emergir dos acontecimentos pontuais e até dramáticos.

Se consultado, o professor Braudel opinaria, quem sabe, que o que está aí, produto de longa e inexorável gestação, é o que tenderá a se repetir ao longo deste ano. Ou seja, se as causas de ontem tivessem sido outras, quem sabe o nosso agora seria diferente.

Na mesma linha precisamos passar de copistas para inovadores, deixar de ser reboque das grandes nações para emparelharmos com elas.

É inevitável que preparemos- face às mudanças bruscas e incessantes- as futuras gerações para o trabalho autônomo, inovador, sem a garantia de renda mensal. É preciso mexer com toda a estrutura de ensino, incentivar a pesquisa, valorizar o empreendedorismo, mostrar a necessidade de preocupação constante com a carreira profissional, com a rede de relacionamento, com o ousar…

Não ficarão também à mercê dos abalos da queda constante do emprego formal, os que forem preparados para a carreira pública de excelência, para as análises de ambientes, para as políticas públicas de Educação, Saúde, Energia, Meio Ambiente, Urbanismo, Agrícola, Comércio Exterior, Pesquisas…

Assim, deixaremos de ser o País que prepara para o trabalho mecânico, rotineiro, às vezes inútil, de copistas, para o país dos originais. Os que terão outra relação com o trabalho, encontrando mais significado, se os prepararmos ininterruptamente, em ambiente criativo e com profissionais dinâmicos.

O momento é também propício para falar de Consultoria e dos consultores que agora ingressam, recém-desligados ou que desejam uma nova profissão, mais dinâmica, sem rotinas, na jovialidade dos 50 anos e capacitados em saber, experientes.

O rito de passagem contínua mal tratado pelas empresas e pelos profissionais: elas por não prepararem os seus profissionais antes de desligá-los, uma afronta à tão decantada Responsabilidade Social; eles- profissionais- por delegarem as rédeas da sua carreira a outrem, esquecendo-se que é seu patrimônio e que viverão além dos 80 anos com o que fizerem dela, a Carreira.

Luiz Affonso Romano- Consultor

originalmente publicado como De olhos turvos na crise . Ver no www.laboratoriodaconsultoria.com.br  Consultoria dezembro 2008

 

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1 Comment

  1. Luiz Affonso Romano · 4 de junho de 2018 Reply

    Há cerca de cinquenta anos o governo Castello Branco (Bulhões e Roberto Campos) propôs um pacto para conter a explosiva inflação, que não dava trégua.

    As empresas se comprometiam manter estáveis seus preços por 10 meses em troca de estímulos fiscais, creditícios e cambiais e preferência no fornecimento ao governo. A adesão ao pacto foi liderada pela indústria automobilística, que, pela sua importância, trouxe a reboque os fornecedores ( aço, pneus, borracha, plásticos, têxtil…) e estes foram puxando a adesão dos petroquímicos, alimentícios, farmacêuticos…

    Ora, por que agora, noutra crise, situação semelhante- mais severa, perturbadora e crítica, por não haver censura e pelo imediatismo da internet, por mexer mais rapidamente com o emprego das pessoas-, não inicia o governo conversas, em tom de pacto nacional, propondo a contrapartida de incentivos pela imediata suspensão das demissões sem o amparo, orientação e preparação para uma 2ª carreira, um 2º trabalho.

    Está esperando a marola passar? Ou a turbulência, a desordem começar?

    Instrumentos têm: BNDES, SENAI, SENAC, SEBRAE e agora a ABCO

    Abraços,

    Luiz Affonso Romano

    Obs. este texto também é de 2008, com atualização para os cinquenta anos e à menção ao SEBRAE e à ABCO.

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