Choque de governança: uma solução para a crise atual

20 de janeiro de 2016

Ao final de 2015, o Brasil perdeu o ‘grau de investimento’ pela classificação de risco por mais uma agência internacional.  E ao rebaixamento da ‘nota de crédito soberana’ do país, seguiu-se a perda do mesmo status por alguns Estados e Municípios em diferentes localidades pelo Brasil afora.

Isto significa que os investimentos internacionais no país passam a ser vistos como ‘especulativos’, não sendo mais considerados como investimentos em ‘porto seguro’.  A recessão prolongada, a deterioração das contas públicas nos últimos anos e as incertezas no campo politico prejudicam de forma relevante a capacidade dos governos de implementar medidas efetivas que possibilitem estabilizar o crescente endividamento e equilibrar as suas contas.

Há um sentimento generalizado de perda de ‘credibilidade’ na capacidade dos governantes de condução de políticas macro e micro-econômicas que revertam o quadro atual e reiniciem um processo de crescimento consistente e duradouro.

Ao mesmo tempo, constata-se que a atuação do Estado na economia, que se dá de forma direta ou indireta, por meio de empresas estatais e sociedades de economia mista, não tem demonstrado que seu objetivo principal é gerar benefícios para o seu principal investidor, o Cidadão, contribuinte de impostos e tributos nas esferas federal, estadual e municipal.

Hoje, alguns valores básicos adotados pelas sociedades ao longo dos tempos, como a Ética nas relações sociais, parecem ter sido esquecidos no fundo de algum armário de séculos passados.

O que o Brasil necessita é de um ‘Choque de Governança’ !

Um ‘choque’ desta natureza só depende da vontade dos governantes e empreendedores de se posicionar de forma Transparente  e Responsável perante a sociedade (a civil, não apenas os ‘acionistas’ de ‘clubes de interesse restrito’).

A Transparência quanto às decisões que orientam as atividades empresariais e do Estado, e as informações que norteiam a ação gerencial para preservar e otimizar o valor das organizações; e a Equidade no tratamento de todas as partes interessadas no desenvolvimento dos negócios (particulares ou decorrentes da ação do Estado), são opções particulares dos governantes ou proprietários das organizações que podem assumi-las e defendê-las em todo momento, no interesse próprio e da comunidade que representam.

Governar, dirigir, orientar pode perfeitamente ser desempenhado com a cobrança e efetivas demonstrações de que todos os responsáveis nas organizações (públicas ou privadas) tem a obrigação de fazer uma Prestação de Contas da sua atuação de forma clara, compreensível e tempestiva, assumindo integralmente as consequências de seus atos e omissões e atuando com diligência e responsabilidade nas tarefas para os quais são eleitos ou designados.

Os governantes e dirigentes também devem pautar a sua conduta sempre com o zêlo pela viabilidade econômico-financeira das organizações, buscando reduzir o impacto de interferências externas negativas e aumentar o vigor das positivas, e reconhecer sempre a importância e o valor dos diferentes capitais (financeiro, humano, tecnológico, social, ambiental) na sua estrutura para permitir a continuidade dos negócios da sua organização e da ação do Estado em benefício do seu alvo principal, o Cidadão, demonstrando a sua Responsabilidade Corporativa.

A Transparência, a Equidade, a Prestação de Contas e a Responsabilidade Corporativa, são os Princípios que fundamentam a Governança Corporativa, um sistema pelo qual as organizações são apoiadas, monitoradas e incentivadas. E que, bem como as suas boas práticas, aplicam-se a organizações de diferentes tamanhos, natureza jurídica (sociedades limitadas, anônimas, fundações e associações), tipo de controle societário (familiar, estatal, pública), atividade e mercado.

E a adoção das melhores práticas se efetiva pela conversão desses Princípios em recomendações objetivas, alinhando interesses com a finalidade de preservar e otimizar o valor da organização, equilibrando-o com os interesses das outras partes, facilitando, assim, o seu acesso a recursos e contribuindo para a sua longevidade.

Carlos Rocha Velloso

Diretor de Empreendedorismo da ABCO www.abco.org.br 

Conselheiro de Administração e Conselheiro Fiscal Certificado – IBGC

Ouvimos por aí nº 68, fevereiro 2016

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2 Comments

  1. RUBEM ANTONIO DE LIMA COSTA · 15 de fevereiro de 2016 Reply

    O texto do Carlos Velloso induz a “credibilidade” como objetivo da Governança que eu concordo plenamente, e o reconhecimento dos diferentes capitais.
    RUBEM ANTONIO DE LIMA COSTA

  2. Luiz Affonso Romano · 5 de fevereiro de 2016 Reply

    Bem explanado, Velloso, tanto no artigo quanto na palestra do dia 03 de fevereiro Governança nas Estatais na Bovespa- RJ.
    Luiz Affonso Romano

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