Caro Consultor, já lhe ocorreu de ter que rejeitar um trabalho em razão de uma postura antiética ou ilegal por parte de um cliente ou parceiro comercial?

Pensemos que não há uma só empresa organizada cujo Manual de Conduta Ética nos Negócios permita, facilite ou compactue com postura ilegal por parte de seu pessoal. Esses documentos costumam ser revisados, quando não preparados diretamente, por profissionais com larga experiência em questões de integridade. Seu conteúdo veda expressamente qualquer tipo de conduta que não seja Legal, Moral e Ética. Os exemplos neles apresentados remetem a situações bem específicas, como o estrito cumprimento das Leis, o respeito aos Direitos Humanos, atuação consistente com a Sustentabilidade, visão de Longo Prazo, atenção aos interesses das Partes Relacionadas, Honestidade no trato com Clientes e Fornecedores, Igualdade nas relações com Colaboradores, etc. O Consultor também segue um bem elaborado Código de Ética Profissional, que pode ser encontrado em www.abco.org.br (Associação Brasileira de Consultores-ABCO).

Poderíamos perguntar então, o porquê de tantos casos de conduta inapropriada por parte de agentes públicos e de empregados e executivos de empresas, não apenas em nosso meio, como no mundo inteiro. Casos como as operações “Satiagraha” e “Lava-Jato”; a manipulação das taxas de câmbio por executivos de respeitáveis instituições bancárias com atuação mundial; o escândalo das sedes da Copa do Mundo; a prisão e defenestração do executivo principal do FMI em Nova Iorque; as acusações de suborno que derrubaram o Presidente da Alemanha; a sequência de decisões questionáveis que culminou com o acidente de proporções catastróficas no campo petrolífero de Macondo no Golfo do México e tantos outros.

Podemos pensar que situações como estas não fazem parte da realidade do Consultor de empresas. Porém, sem que tenhamos que explicar a ninguém senão a nós mesmos que atitude tomaríamos, vamos refletir no seguinte “caso hipotético”:

Um cliente protegido por acordo de confidencialidade chega a seu escritório pedindo conselho de como proceder para executar o pagamento prometido a um agente público que o beneficiou em uma licitação, através do aumento fraudulento do valor de um contrato milionário. O que você faria como Consultor? Pegaria o serviço “e não se fala mais nisso”? Despacharia sumariamente o cliente? Negaria e orientaria a que consultasse um advogado? Denunciaria às autoridades?

Pois é. A conduta ética se dá no dia a dia das ações no mundo real, independentemente da expressão verbal das vontades. Requer atenção constante dos atores com relação não apenas aos papéis sendo desempenhados, mas ao script, que é o pano de fundo onde se dão as interações humanas e ocorre o jogo dos interesses, na maioria das vezes legítimos. Muitas vezes, uma coisa é o que se diz, outra muito diferente é o que se faz.

Alguém disse que “ético é tudo aquilo que você faz e que não o envergonharia se chegasse ao conhecimento de seus amigos e vizinhos”, ou, no caso, dos seus parceiros, ou até do MP.

O objetivo das notas acima é fazer pensar. Porque em questões de ética, pouco se pode ensinar, sem a consistência e persistência do exemplo diário. Nestes assuntos, a pessoa geralmente sabe discernir entre o que é certo e o que é errado. É uma questão de maturidade moral, que independe de educação formal, endereço, status corporativo, classe social ou nível de renda.
Carlos Peixoto é Consultor de empresas e Vice-Presidente da ABCO – Associação Brasileira de Consultores
Publicado no Ouvimos por aí nº 61, julho 2015

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2 Comments

  1. Luiz Affonso Romano · 6 de abril de 2016 Reply

    Nas últimas décadas, com imprensa livre, os questionamentos sobre a conduta ética alcançaram crescente importância tanto no âmbito das empresas da iniciativa privada quanto no da administração pública.
    Na medida em que a grande sociedade tem acesso às informações e consciência da responsabilidade das organizações, passamos a exigir explícita competência no desempenho, impessoalidade, honestidade de propósitos e transparência nas ações corporativas. Assim, a ética empresarial tornou-se condição essencial para a sobrevivência das organizações. O livrinho há que sair da gaveta da diretoria.
    Ademais, há movimentos, dando os primeiros passos, no sentido do cidadão ser implacável com as que não respeitam os consumidores, agridem o meio ambiente, combinam preços, privilegiam por gênero, por opção sexual, e não exercem boas práticas organizacionais, desligando-se delas, não as escolhendo como empresas admiradas.
    Luiz Affonso Romano
    Consultor

  2. Luiz Affonso Romano · 30 de julho de 2015 Reply

    Bem lembrado, consultor Peixoto. Os “executivos e empregados” devem investir pesadamente na preparação para uma 2ª carreira, a fim de não terem que conviver com organizações/empresas que optem por ações à margem da moral, da ética, Também os consultores e auditores não podem fingir que não veem.
    Na pesquisa Perfil da Consultoria no Brasil 2015, fizemos a seguinte pergunta:
    1.Você e seus colegas de consultoria estão familiarizados com os termos da Lei 12.846 de 01 de agosto de 2013 Lei Anticorrupção do Brasil ?
    ( ) Sim
    ( ) Não

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